Na tradição da Psicologia Social, o hiato entre o indivíduo e o coletivo frequentemente gerou reducionismos: ou se explicava a sociedade como uma simples soma de mentes individuais (psicologismo), ou se reduzia o indivíduo a um mero fantoche das determinações macroestruturais (sociologismo). Em 1961, ao publicar sua obra clássica sobre a difusão da Psicanálise na França, o psicólogo romeno-francês Serge Moscovici rompeu com essa dualidade ao formular a Teoria das Representações Sociais (TRS).
Moscovici resgatou o conceito de “representações coletivas” do sociólogo Émile Durkheim, mas introduziu uma diferença epistemológica crucial. Enquanto Durkheim via as representações como estruturas estáticas, coercitivas e imutáveis impostas pela sociedade, Moscovici argumentou que, nas sociedades contemporâneas (caracterizadas pela circulação massiva de informação e pela velocidade das transformações), as representações são dinâmicas, plásticas e constitutivas da realidade. As representações sociais são formas de “saber ingênuo”, prático e compartilhado, o chamado senso comum, que produzem e transformam a vida cotidiana.
O Universo Reificado vs. O Universo Consensual
Para compreender a gênese das representações sociais, Moscovici divide o funcionamento intelectual da sociedade em dois universos mentais distintos que coexistem em tensão permanente:
1. O Universo Reificado
É o espaço da ciência, da academia e da técnica. Opera sob a lógica da objetividade rigorosa, da hierarquia conceitual, da verificação empírica e da linguagem especializada. No universo reificado, o conhecimento é produzido por especialistas e busca desmistificar a experiência imediata do sujeito, exigindo rigor metodológico e neutralidade.
2. O Universo Consensual
É o espaço da vida cotidiana, da conversa de bar, da imprensa e das interações sociais diárias. Aqui, o conhecimento é produzido coletivamente e sem método formal. O universo consensual não busca a “verdade científica”, mas sim a utilidade prática, a coesão do grupo e a orientação das condutas diárias. As representações sociais são os saberes que povoam e organizam o universo consensual.
A função central da Representação Social é atuar como uma “ponte” entre esses dois mundos: ela pega os conceitos complexos e abstratos do universo reificado (como uma nova teoria psicológica, um vírus, uma crise econômica) e os traduz para o universo consensual, permitindo que a população leiga consiga falar sobre eles, julgá-los e agir em relação a eles.
A Função Sociopsicológica: Tornar o Estranho Familiar
A premissa fundamental da TRS é que o ser humano possui uma aversão profunda ao desconhecido. O objeto não-sabido, a teoria nova ou o fenômeno inexplicado geram perturbação e ansiedade, pois ameaçam o sentimento de controle e a coesão do grupo social.
A função primordial de uma representação social é tornar familiar aquilo que é estranho (não-familiar). Ela “domestica” o objeto perturbador, retirando-o do terreno do mistério e encaixando-o em coordenadas conceituais que o grupo já domina. Uma representação social cumpre quatro funções sociais indispensáveis:
- Função do Saber: Permite que os sujeitos compreendam e expliquem a realidade ao seu redor de forma inteligível.
- Função Identitária: Define a pertença do indivíduo a um grupo social e salvaguarda a identidade coletiva em relação aos outros grupos.
- Função de Orientação: Guia e prescreve os comportamentos e atitudes considerados adequados ou proibidos diante do objeto.
- Função Justificativa: Permite aos grupos respaldar ou legitimar a posteriori suas tomadas de decisão e suas ações sociais.
Os Dois Motores da Representação: Ancoragem e Objetivação
Como uma ideia abstrata do universo reificado é processada pela mente coletiva até se transformar em um sabão do senso comum? Moscovici identificou dois processos psicossociais indissociáveis e simultâneos:
1. A Ancoragem (A Absorção Cognitiva)
A ancoragem é o processo que atraca o objeto desconhecido em uma rede de categorias e conceitos pré-existentes na memória histórica e cultural do grupo. É a busca por equivalência. A ancoragem realiza duas operações fundamentais:
- Classificação: O grupo declara que o objeto novo é “igual a” ou “parecido com” algo que já se conhece.
- Nomeação: Ao dar um nome ao objeto desconhecido a partir do repertório antigo, o grupo o retira do anonimato e passa a exercer controle sobre ele.
Exemplo Clínico/Histórico: Quando a Psicanálise começou a circular na sociedade laica, as pessoas ancoraram o processo analítico na ideia já conhecida da “confissão católica”, e o conceito de Inconsciente foi ancorado no conceito moral do “lado oculto ou maligno do ser humano”.
2. A Objetivação (A Materialização da Ideia)
Se a ancoragem classifica, a objetivação materializa. A objetivação é o processo pelo qual a mente social substitui uma abstração por uma imagem concreta, visível e palpável. Ela transforma uma palavra em uma “coisa”. A objetivação ocorre em três etapas rigorosas:
- Seleção e Descontextualização (Filtro): O grupo social seleciona apenas as partes da teoria que lhe interessam ou que encaixam em seus valores morais, descartando o rigor teórico original.
- Formação do Esquema Figurativo (A Metáfora): A mente coletiva sintetiza as ideias selecionadas em um modelo visual ou numa metáfora simples e poderosa.
- Naturalização (A Reificação do Símbolo): A imagem criada deixa de ser vista como uma mera metáfora e passa a ser tratada como a própria realidade física. O conceito abstrato ganha corpo.
A Abordagem Estrutural: A Teoria do Núcleo Central (Jean-Claude Abric)
Na década de 1970, o psicólogo francês Jean-Claude Abric desdobrou a obra de Moscovici ao propor a Teoria do Núcleo Central. Abric demonstrou que uma representação social não é um amálgama caótico de opiniões, mas sim um sistema hierarquizado e estruturado, composto por duas instâncias fundamentais:
1. O Núcleo Central
É a parte mais importante, estável e rígida da representação. O Núcleo Central é diretamente determinado pela história, pela cultura e pelas determinações ideológicas do grupo. Ele cumpre duas funções essenciais:
- Função Geradora: É ele que cria o significado e atribui valor aos outros elementos da representação.
- Função Organizadora: Determina a natureza das ligações que unem os elementos entre si.
Propriedade Fundamental: O Núcleo Central é extremamente resistente à mudança. Se o núcleo central de uma representação se altera, a representação inteira se transforma em uma nova representação social. Ele é consensual dentro do grupo.
2. O Sistema Periférico
É a camada protetora que envolve e blindará o Núcleo Central. Ao contrário do núcleo, o Sistema Periférico é flexível, dinâmico, heterogêneo e sensível às contingências do cotidiano. Suas funções são:
- Absorver as Contradições: Acolhe as informações novas ou divergentes da realidade sem permitir que elas destruam o Núcleo Central.
- Permitir Adaptações Individuais: Permite que diferentes indivíduos do mesmo grupo tenham variações pessoais sobre o objeto sem romper com o consenso do grupo.
- Proteger o Núcleo: Funciona como uma “zona de amortecimento”. Diante de uma mudança na realidade, as primeiras alterações ocorrem na periferia, preservando a identidade estável do núcleo.
